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Ruínas do Sítio Histórico da Igreja de São José do Queimado: museu a céu aberto no Município de Serra

Por João Zuccaratto*

Local foi palco de insurreição de negros cativos em 1849. Revolta passou a ser considerada como das mais importantes na luta dos escravos pela liberdade dentro da história brasileira. Estrutura, abandonada ao tempo durante mais de meio século, transformou-se em ruínas. Agora, recuperada, será aberta à visitação.

Monumento de resistência à escravidão negra

O mais importante monumento relacionado à resistência contra a escravidão negra no Estado do Espírito Santo está recuperado. Agora, pode recepcionar estudantes, estudiosos e pesquisadores, além de grupos de moradores e turistas, oferecendo conforto e segurança.

Tratam-se das ruínas da Igreja de São José do Queimado, situada no topo de uma elevação no Distrito de Queimado. Ele fica a Oeste do Município de Serra, vizinho pelo Norte da Cidade de Vitória, a capital capixaba — distante por volta de 25 quilômetros desta última.

Abrange,hoje, área com cerca de 77 quilômetros quadrados. Em tempos idos, já pertenceu ao Município de Vitória e ao Município de Santa Leopoldina. Ganhou a denominação em virtude das queimadas frequentes no seu entorno, pois é local de Sol forte e de muito calor.

O local foi palco da Insurreição do Queimado, ou Revolta do Queimado. Ela aconteceu noano de 1849, quando negros escravizados se rebelaram por não receber a alforria prometida em troca da dedicação e trabalho de construção, justamente, daquele templo da fé católica.

O mais importante monumento relacionando à resistência contra a escravidão negra no Estado do Espírito Santo está recuperado. Agora, pode recepcionar estudantes, estudiosos e pesquisadores, além de grupos de moradores e turistas, oferecendo conforto e segurança

Navegação pelo Rio Santa Maria da Vitória

Anos antes, havia ali chegado o frei italiano Gregório José Maria de Bene. Ele ficou muito surpreso ao encontrar uma aglomeração urbana em franco crescimento, superando a Sede tanto em termos da quantidade de casas e empreendimentos comerciais como em população.

Isso, graças aomovimento gerado pelo Porto de Una, bem próximo. Na verdade, ponto de parada de barcos subindo e descendo oRio Santa Maria da Vitória. Esse curso d’água era navegável por todo o trecho ligando a Cidade de Vitória e a Cidade de Santa Leopoldina.

Impulsionadas a remos acionados por barqueiros, as canoas eram a principal ligação entre o litoral e os pés da Região de Montanhas do Estado do Espírito Santo. Desciam abarrotadas de produtos agrícolas, como café; e subiam levando principalmente itens industrializados.

O progresso da Freguesia de São José de Queimado vinha do movimento gerado pelo Porto de Una, ali próximo. Na verdade, ponto de parada de barcos subindo e descendo o Rio Santa Maria da Vitória, navegável entre Cidade de Vitória e Cidade de Santa Leopoldina

Alforria em troca da construção da igreja

O padre Gregório José Maria de Bene logo percebeu algo importante para desenvolver seu trabalho: apesar do progresso, a Freguesia de São José do Queimado não tinha igreja. Por isso, entre suas primeiras decisões, resolveu erguer um templo para melhor atender os fiéis.

Para tanto, precisaria do serviço dos escravos, após permissão dos senhores desses cativos. Como os trabalhos desenvolvidos nas fazendas não poderiam ser interrompidos, os negros teriam de concordar em usar seus períodos de descanso e folga para tocar a grande obra.

Para convencê-los, o religioso prometeu a cada um conceder liberdade após a inauguração. Fez a proposta por conta própria, sem acertar com os senhores. Acreditava conseguir as libertações a partir daamizade com a imperatriz Teresa Cristina, esposa de dom Pedro II.

Para convencer os escravos a trabalhar de graça, o religioso prometeu conceder liberdade após a inauguração. Fez a proposta sem combinar com os senhores. Acreditava conseguir as libertações a partir da amizade com a imperatriz Teresa Cristina, esposa de dom Pedro II

Negros colocam fé na promessa do religioso

Sem saber sobre esses pormenores, e pondo fé nas afirmações do religioso, negros de todas as idades, homens, mulheres, aproveitavam todos os seus momentos livres para se dedicar às obras: nivelaram terreno, assentaram bases, ergueram paredes, instalaram telhado etc.

Os milhares de pedras utilizadas nos alicerces e nas grossas estruturas vieram de longe, em maioria, retiradas do leito do Rio Santa Maria da Vitória; as maiores, nas costas de adultos jovens; as menores, por idosos e crianças — algumas com apenas cinco, seis anos de idade.

Aos poucos, uma edificação em três partes sobressaiu-se no topo da elevação do terreno, constituída por átrio, nave e capela-mor. O primeiro, espaço no entorno da entrada, tinha a mesma largura da fachada. Sendo elevado, é acessado por quatro degraus em semicírculo.

Suas laterais eram delimitadas com muretas, das quais projetavam-se bancos. O conjunto traduzia a transição entre o exterior secular e o interior sagrado. Atravessá-lo representava um momento de transição em direção a momentos de purificação do espírito perante Deus.

O frontispício em plano vertical único abrigava três portas: a maior, central, ornamentada, e duas, à direita e esquerda, fechadas posteriormente. E eram encimadas por três janelas: uma de cada lado, ornamentadas com desenhos de flor de lis; a do meio, por adornos circulares.

O remate superior da fachada apresentava frontão curvilíneo, em alto relevo, mais quatro pináculos —pontos mais altos do conjunto. Como símbolo máximo do Cristianismo, uma cruz em madeira coroava a composição, conferindo ainda mais imponência e suntuosidade.

O remate superior da fachada apresentava frontão curvilíneo, em alto relevo, mais quatro pináculos — pontos mais altos do conjunto. Como símbolo máximo do Cristianismo, uma cruz em madeira coroava a composição, conferindo ainda mais imponência e suntuosidade

Igreja contava com três sinos em bronze

O religioso Gregório José Maria de Bene, em relato sobre as dimensões da Igreja de São José do Queimado, revela ter a nave 90 palmos de comprimento e 42 de largura; capela-mor, 45 e 22 —o palmo tem 22 centímetros; é sódividir por cinco para obter os metros.

O interior exibia dois ambientes de largura e altura diferenciadas: a nave voltada a receber os fiéis e a capela-mor, mais intimista. A interseção entre uma e outra era dada por um arco cruzeiro. A cobertura de telhas de barro capa-canal apoiava-se sobre estrutura de madeira.

À esquerda da porta principal, uma escada dava acesso ao balcão, espaço delimitado por guarda-corpo até à altura das janelas, todo em madeira, destinado às apresentações do coro ao longodas celebrações diversas: batizados, casamentos, celebrações, crismas, missas…

E, impressionante para uma pequena capela de interior, contava com três sinos, em bronze, importados da Europa, doações conseguidas pelo frei Gregório José Maria de Bene junto aos principais fazendeiros das proximidades e até mesmo moradores da Cidade de Vitória.

Impressionante para uma capela de interior, a Igreja de São José do Queimado contava com três sinos, em bronze, importados da Europa, doações conseguidas pelo frei Gregório José Maria de Bene junto aos fazendeiros das proximidades e moradores da Cidade de Vitória

Escravos esperam a inauguração para se rebelarem

Com trabalhos concluídos no início do ano de 1849, foram marcadas para 19 de março, dia consagrado a São José pela Igreja Católica, as solenidades de inauguração da igreja. Até lá, os escravosaguardarampela posse dos documentos livrando-os da submissão aos senhores.

Ao perceberem terem sido enganados mais uma vez, tendo à frente cinco nomes respeitados na comunidade de cativos — todos envolvidos nos serviços da igreja, sonho dos moradores da região —, cerca de 300 rebelados aproveitam a data solene para dar início à insurreição.

Liderados por Carlos, Elizário, Chico Prego, João Monteiro e João Pequeno, esperaram a missa das 15:00 horas começar e, com todos os proprietários de fazendas e suas famílias no interior da nave, cercaram o prédio e invadiram o local, bradando “Liberdade! Liberdade!”

Ao perceberem terem sido enganados mais uma vez, tendo à frente cinco nomes respeitados na comunidade de cativos — todos envolvidos nos serviços da igreja, sonho dos moradores da região —, cerca de 300 rebelados aproveitam a data solene para dar início à insurreição

Fazendeiros, coagidos, entregam Cartas de Alforria

O padre Gregório José Maria de Bene, celebrando em Latim, de costas para os fiéis, como era o costume naqueles tempos, surpreendido pela movimentação, correu para a Sacristia, trancando-se lá dentro. Mantendo-se incomunicável, fugiu de interferir nos acontecimentos.

As horas se passaram e os negros, pressionando os senhores brancos, só os deixaram voltar às suas casas após redigirem e assinarem Cartas de Alforria, libertando os responsáveis pelo trabalho da construção. Ao final do dia, acreditando serem vitoriosos, comemoram o feito.

Retornaram às fazendas onde viviam, preparando-se para deixar as senzalas imediatamente e com planos para recomeçar a vida longe dos grilhões. Não houve tempo. O governador da Província do Espírito Santo, sabendo do acontecido, resolveu enviar soldados para a região.

As horas se passaram e os negros, pressionando os senhores brancos, só os deixaram voltar às suas casas após redigirem e assinarem Cartas de Alforria, libertando os responsáveis pelo trabalho da construção. Ao final do dia, acreditando serem vitoriosos, comemoram o feito

Governador envia forças policiais para a região

Preocupado com possível agravamento e expansão da ocorrência na Província, reuniu um forte contingente de militares. Foram 31 praças,liderados poroficial. Marchando, o grupo deixou as instalações da Companhia Fixa de Caçadores, no Centro da Cidade de Vitória.

Orientados por capitães-do-mato, durante cinco dias, as tropas vasculharam as terras, atrás de rebelados. Percorreram as fazendas, recolhendo e queimando Cartas de Alforria obtidas sob a coação dos proprietários, identificando os cabeças das ações e colocando-os a ferros.

Enfrentando perseguição cruel, quem resistia era surrado com bastante violência; alguns não suportaram os muitos ferimentos. Mesmo se rendendo, não escapavam dos maus tratos, sendo derrubados ao chão, chicoteados, chutados, pisoteados e arrastados pelos captores.

Orientados por capitães-do-mato, durante cinco dias, as tropas vasculharam as terras, atrás de rebelados. Percorreram as fazendas, recolhendo e destruindo Cartas de Alforria obtidas sob a coação dos proprietários, identificando os cabeças das ações e colocando-os a ferro

Chico Prego e João Monteiro são enforcados

Dos presos sobreviventes aos maus-tratos e torturas, 38 foram a julgamento. Seis acabaram absolvidos; 27 receberam penas de açoites: braços presos ao pelourinho, tiveram as costas laceradas por tiras de couro; e os cinco identificados como lideranças, condenados à morte.

Enquanto esperavampeloenforcamento, marcado para 7 de dezembro de 1849, escaparamdas grades. Como não foram encontrados sinais de arrombamento na prisão, a fugaacabou atribuída a milagre de Nossa Senhora da Penha, a padroeira da Província do Espírito Santo.

Esconderam-se pelas florestas do Morro do Mestre Álvaro, nas quais Chico Prego e João Monteiro acabaram recapturados. O primeiro foi executado em janeiro de 1850, bem junto à Igreja Matriz, na Sede; o outro, em frente à edificação erguida mediante os seus esforços.

Carlos, Elizário e João Pequeno nunca foram encontrados. Provavelmente, sucumbiram por acidentes, desnutrição ou doenças, em virtude da precariedade da vida de fugitivos. Com o passar do tempo, e a tradição da cultura oral do período, criou-se forte mito sobre Elizário.

Conta sobre ele ter ido para as matas do Monte Mochuara, no atual Município de Cariacica, onde acaboufundando um quilombo. Esse fatoésem fundamentos. O número de cativos fugidios pela Província do Espírito Santo nunca foi suficiente para criar algo semelhante.

Além disso, havia várias fazendas pelos arredores. Se aparecesse, acabaria detido. De todo modo, a fantasia ganhou corpo na sociedade, nascendo o Zumbi da Serra, isso, numa clara alusão ao Zumbi criador do Quilombo dos Palmares, nas terras da Província de Alagoas.

O padre Gregório José Maria de Bene, caracterizado por muitos como missionário opositor do regime de escravidão, também passou longo tempo na cadeia. Acusado de ter apoiado a insurreição dos negros, foi julgado e sentenciado à expulsão da Província do Espírito Santo.

Dos presos sobreviventes aos maus-tratos e torturas, 38 foram a julgamento. Seis acabaram absolvidos; 27 receberam penas de açoites: braços presos ao pelourinho, tiveram as costas laceradas por tiras de couro; e os cinco identificados como lideranças, condenados à morte

Acontecimento apagado dos registros históricos

Restabelecida a autoridade branca do Governo Imperial, com o passar do tempo, o fato foi sendo apagado dos registros históricos oficiais. Ajudou nisso a forte expansão econômica oriunda da ampliação do movimento de navegação através do Rio Santa Maria da Vitória.

A partir de 1875, com a chegada dos imigrantes europeus — austríacos, alemães, italianos, pomeranos etc. —, e o estabelecimento destes em colônias nas serras do entorno da Cidade de Santa Leopoldina, houve um enorme crescimento da produção e da exportação de café.

Devido às proximidades com o Porto de Una, a Freguesia de São José do Queimado acabou bastante beneficiada. Isso se manteve durante duas primeiras décadas do século XX, anos 1900, enquanto ocorria gradual substituição do transporte fluvial pelo transporte rodoviário.

Restabelecida a autoridade branca do Governo Imperial, com o passar do tempo, o fato foi sendo apagado dos registros históricos oficiais. Ajudou nisso a forte expansão econômica oriunda da ampliação do movimento de navegação através do Rio Santa Maria da Vitória

São José do Queimado definha após ligação rodoviária

Com o deslocamento dos negócios para o entorno da região da atual Sede do Município de Serra, a comunidade parou de crescer e definhou aceleradamente. A população diminuiu a olhos vistos, comércios sendo fechados, residências abandonadas, prédios iniciando a ruína.

Por volta da metade da década de 1940, apenas a Igreja de São José do Queimado reinava sozinha ao centro da área antes tomada por muitos imóveis. Acabou fechada e abandonada, devido à interrupção das missas e solenidades, em virtude dainexistência de moradores.

Largada à própria sorte, sem cuidados e manutenção, atacada pela ação do tempo, vítima de incêndio, o telhado ruiu, levando partes das paredes ao chão. Aos poucos, a Natureza tomou conta. A floresta voltou a ocupar o espaço do qual havia sido expulsa pela ação do homem.

Por volta da metade da década de 1940, apenas a Igreja de São José do Queimado reinava sozinha ao centro da área antes tomada por muitos imóveis. Acabou fechada e abandonada, devido à interrupção de missas e solenidades, em virtude da total existência de moradores

História desaparece da memória capixaba

O sítio histórico onde está a ruína praticamente desapareceu: além de duas paredes laterais da igreja e um quadrado murado demarcando o cemitério da,antes, fervilhante Freguesia, não se encontra sinal do povoado de importância econômica até depois do Brasil Colônia.

A história da vila foi incrivelmente apagada da memória do povo capixaba. Ajudou nisso a Natureza, cobrindo de Mata Atlântica os espaços antes de casas e ruas. O início do resgate de todo oSítio Histórico da Igreja de São José do Queimado é do Instituto Modus Vivendi.

Os recursos para custear as obras foram repassados pelo Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo — Sincades. Assim, começa a se criar ali um museu a céu aberto, permitindo gerar estudos e pesquisas nas áreas de Arqueologia, Cultura, História

O sítio histórico onde está a ruína praticamente desapareceu: além de duas paredes laterais da igreja e um quadrado murado demarcando o cemitério da, antes, fervilhante Freguesia, não se encontra sinal do povoado de importância econômica até depois do Brasil Colônia

Numa segunda etapa, recuperação do cemitério

Numa segunda etapa, a visitação pública será ampliada para o espaço do cemitério. Mais adiante, pontos situados em meio à pequena floresta ali existente, surgida durante as muitas décadas de total abandono, exibirão restos de construções antes ali existentes e dominantes.

As obras do restauro seguiramum projeto arquitetônico criado pela Prefeitura de Serra há quase 10 anos.Os trabalhos, iniciados comlimpeza criteriosa do terreno e monitoramento arqueológico do monumento, foram revelando os detalhes da arquitetura original da igreja.

Assim, reapareceram vestígios do aterro para nivelamento da área, escada de acesso, piso original, arco do cruzeiro, pedra do átrio e outros elementos. O encontro sucessivo desses marcos enriqueceu mais ainda aquele acervo, valorizando os esforços então desenvolvidos.

As obras do restauro seguiram um projeto arquitetônico criado pela Prefeitura de Serra há quase 10 anos. Os trabalhos, iniciados com limpeza criteriosa do terreno e monitoramento arqueológico do monumento, foram revelando os detalhes da arquitetura original da igreja

Ruínas estão sustentadas por cinturão de aço

Seguindo normas internacionais voltadas à recuperação e restauraçãodos monumentos históricos, as paredes ainda em pé passaram a ser sustentadas por um cinturão em aço — essa solução também permitiu a inclusão de elementos contemporâneos àquele conjunto.

Sem interferir na estrutura original ali encontrada, foram acrescentados escada, mezanino e frontão. Além de embelezar o conjunto, facilitam a movimentação das pessoas no interior das ruínas e permitem novos ângulos para observação, principalmente dos espaços ao redor.

Placas de sinalização e textos explicativos estão fixados em pontos estratégicos — melhor quando os conteúdos forem replicados em Braille. Também é fundamental a instalação de itens capazes de melhorar a acessibilidade: corrimões de segurança, pisos direcionais etc.

Placas de sinalização e textos explicativos estão fixados em pontos estratégicos — melhor quando os conteúdos forem replicados em Braile. Também é fundamental a instalação de itens capazes de melhorar a acessibilidade: corrimões de segurança, pisos direcionais etc.

Elementos da arquitetura original são ressaltados

Ressaltados em diversos pontos fora e dentro do ambiente das ruínas recuperadas da Igreja de São José do Queimado, estão diversos elementos originais da arquitetura do templo. E eles resumem as técnicas de construção desenvolvidas pelo homem ao longo dos séculos.

• Acesso do Altar

Em meio aos degraus da escada, foram encontrados vestígios de tecidos ornamentais com franjas douradas, moedas centenárias, restos de vidros de oratório, cravos usados na fixação do piso, moldura de um painel envolvendo pintura decorativa do altar e parte do retábulo.

• Alvenaria das Paredes

Erguidas com pedras irregulares, oriundas, principalmente, dos leitos dos rios, assentadas com argamassa composta de areia, argila e cal, além de aglomerados diversos. Nascem de bases reforçadas, mostrando o cuidado dos construtores com a segurança da obra pronta.

• Digitais em Tijolos

Uma curiosidade chamou a atenção dos pesquisadores na fase da Arqueologia: presença de digitais em todos os tijolos encontrados. Isso era feito pelo oleiro, marcando sua produção, com objetivo de garantir pagamento pelos lotes entregues para o desenvolvimento da obra.

• Elementos do Átrio

Integrantes da entrada principal da igreja, são pedras modeladas segundo a arte da Cantaria, ofício amplamente difundido durante o período Colonial do Brasil. Eram parte fundamental da arquitetura das construções com caráteres oficial e religioso durante toda aquela época.

• Pedras do Meio da Nave

Compondo o frontão, tinham por finalidade a decoração da fachada da Igreja de São José do Queimado, em sua parte mais elevada. A expressiva espessura das paredes permitiu à alvenaria sustentar todos os elementos de arte embelezadores da ampla entrada do templo.

• Piso Original e Piso Moderno

O piso da igreja apresenta dois períodos.O primeiro, 70 centímetros abaixo do atual, aterro do início da construção, depois coberto por tábuas. Sobre esse, novo aterro feito com restos de demolições, arrematado por camada de cimento, já no início do século XX, anos 1900.

O piso da igreja apresenta dois períodos. O primeiro, 70 centímetros abaixo do atual, aterro do início da construção, depois coberto por tábuas. Sobre esse, novo aterro feito com restos de demolições, arrematado por camada de cimento, já no início do século XX, anos 1900

Restauro garante preservação de uso do espaço

Érika Kunkel Varejão, a presidente do Instituto Modus Vivendi, detalha o processo de restauro e readequação das ruínas da Igreja de São José do Queimado, tudo autorizado pelos órgãos de proteção ao patrimônio histórico em níveis municipal, estadual e federal:

— O trabalho buscou garantir preservação e uso do sítio histórico. As intervenções foram essenciais devido ao desgaste das ruínas. O projeto original mostrou-se bastante flexível, aceitando a incorporação de alterações impostas pelas inusitadas descobertas arqueológicas.

— Restauro é sensibilidade, memória afetiva e estar aberto a mudanças a partir da realidade encontrada no espaço, transformando o esboço inicial em solução mais rica e interessante. Assim atuamos nesta primeira fase e assim continuaremos se fizermos a segunda, terceira…

Érika Kunkel Varejão: “Buscamos preservação e uso do sítio histórico. As intervenções foram essenciais pelo desgaste das ruínas. O projeto original mostrou-se bastante flexível, aceitando incorporação de alterações impostas pelas inusitadas descobertas arqueológicas”

Importante ação de resgate da história capixaba

Presidente do Sincades, Idalberto Moro, expressou a honra do setor atacadista e distribuidor capixaba em contribuir com mais esta importantíssima ação voltada ao resgate da história do Estado do Espírito Santo, assim como já fez em outras oportunidades, nos últimos anos:

— Não faz sentido sermos ferramenta decisiva para o desenvolvimento econômico da nossa terra se não nos inserirmos na valorização da cultura e história capixabas. O setor entende a importância dessa entrega e se orgulha por estar contribuindo para fortalecer nossas raízes.

Idalberto Moro: “Não faz sentido o Sincades ser decisivo no desenvolvimento econômico da nossa terra e não se inserir na valorização da cultura e história capixabas. A recuperação das ruínas da Igreja de São José do Queimado contribui para fortalecer essas nossas raízes”

Museu a céu aberto, para estudos e visitação

Prefeito do Município de Serra, Audifax Charles Pimental Barcelos ressalta a restauração do Sítio Histórico da Igreja de São José do Queimado comomaior valorizaçãoda trajetória de todo o nosso povo brasileiro, resultado da miscigenação de raças branca, nativa e negra:

— É importância histórica de todos nós, e não só dos movimentos negros local e nacional. Preservar essa história é fundamental. Com a restauração das ruínas, criamos um museu a céu aberto e, a partir dele, as pessoas poderão conhecer um pouco mais sobre nossas lutas.

Audifax Charles Pimental Barcelos: “É importância histórica de todos, não apenas dos movimentos negros. Preservar é fundamental. Com a restauração, criamos um museu a céu aberto, no qual as pessoas poderão conhecer um pouco mais das lutas do povo brasileiro”

Historiadores recuperam valor da Insurreição

Para alguns pesquisadores, a Insurreição do Queimado, um marco na luta dos negros pela liberdade, não foi a única revolta de escravos acontecida no Município da Serra. No ano de 1842, já havia ocorridaum outra, com proporções reduzidas e sem grandes consequências.

Mesmo com o fato registradono livro “A Insurreição de Queimado”, de Afonso Cláudio de Freitas Rosa— mais tarde, governador do Estado do Espírito Santo —, publicado em 1949, um século depois de ocorrida, durante décadas passou esquecida, sem amerecida atenção.

Mais recentemente, foi abordada com maior profundidade pelo historiador capixaba Clério José Borges. Seu livro “História da Serra” traz informações detalhando a forma como se reduziu a importância do fato histórico, menosprezando a luta dos negros por sua liberdade.

A partir de 2009, professores da rede pública de ensino do Município de Serra passaram a ser capacitados para abordar essa história em sala de aula: 160 anos depois! Os movimentos negros começaram a promover eventos de conscientização nas semanas do dia 19 de março.

O Município também batizou como Lei Chico Prego a iniciativa oficial para o fomento de projetos voltados à cultura e história locais, com editais liberando a captação de recursos junto à iniciativa privada visando a produção de apresentações, livros, peças de teatro etc.

O Município também batizou como Lei Chico Prego a iniciativa oficial para o fomento de projetos voltados à cultura e história locais, com editais liberando a captação de recursos junto à iniciativa privada visando a produção de apresentações, livros, peças de teatro etc.

*João Zuccaratto é Jornalista especializado em turismo sediado na cidade de Vitória – ES / (27) 9-8112-6920

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