"Se eu consegui lá, eu consigo em qualquer lugar"

Turismo Adaptado 01 Nov 2017

Quase todo mundo, pelo menos em algum momento da vida, já sentiu vontade de viajar. E quase todo mundo, um dia também já pensou... Mas, sozinha (o)? Deve ser tão difícil quanto sem graça... Sinto muito, mas quem pensou assim estava errado.

Bom, tenho que dizer que, no primeiro momento, a idéia era viajar com mais duas amigas, que também são cadeirantes. Fizemos algumas reuniões de planejamento, pois a minha preocupação não era a viagem em si, mas o fato de três cadeirantes viajarem juntas. Este sim era o desafio. Mas a vida nem sempre corre como nós queremos e, à medida que promovíamos nossos encontros para o planejamento da aventura, novos aparecimentos de situações inesperadas também tinham que ser administrados e íamos percebendo que alguns sonhos iriam ficar pelo caminho.

Disposta a encarar e aprender com os imprevistos, entendi que faria a viagem sozinha. Desistir é uma palavra que não existe no meu dicionário, logo, precisei de uma boa dose de concentração e coragem para o embarque. Ah, claro, tive uma dose extra de sorte também, pois nesse período recebi um convite para participar Global Partnership on Children with Disabilities, um evento que acontece de 2 em 2 anos na UNICEF, Nova York. O evento é sobre as ações que o mais de 41 países, incluindo o Brasil, desenvolvem na área da criança com deficiência. É estrategicamente pensado para que todos os parceiros participem, no mesmo período, também das reuniões de alto nível da Assembléia Geral sobre Deficiência e Desenvolvimento. Imaginem como estava a “grande maçã” nesse período em que se concentravam as maiores autoridades internacionais...

Confesso que planejar a primeira viagem sozinha para o exterior foi um dos momentos mais marcantes da minha vida como viajante. Era a realização de um desejo, que por alguns momentos, pareceu impossível. Mas quando começou a se tornar realidade, foi difícil a principio gerenciar as expectativas com a realidade dos detalhes práticos para se chegar a Nova York.

Tive apenas alguns dias para resolver tudo e batalhei muito antes de colocar o pé e as rodas no avião… Documentação em ordens e saúde também. É chegada àhora!

Enquanto voava e ainda tensa com o mundo desconhecido que me aguardava, pensava constantemente em como seria andar sem rumo pela cidade, estar com pessoas do mundo inteiro e o mais instigante, sozinha. Vivi esse estado de alerta durante todo o vôo.

O céu azul e o sol de outono me deram boas-vindas. Cumprido todo protocolo de chegada e bagagens em mãos, tive o meu primeiro dos muitos “causos” ainda no aeroporto: Meu transfer, ou o carro que me esperava, saiu com outra cadeirante (no caso, uma senhora), que, só por também usar cadeira de rodas, o motorista achou que era eu. Como podemos ver, não é só aqui no Brasil que as pessoas acham que cadeirante é tudo igual. Fala sério!

Agora, acredito que é lá onde tudo acontece. Nova York não dorme e dormir foi o que eu menos fiz durante a minha estada. A cidade é inigualável, e o movimento constante é o que a torna tão especial.

Foram as experiências, as situações, as vivências e as pessoas – sempre as pessoas -, que despertaram em mim o instinto da sobrevivência, da aventura, de conhecer novas culturas, formas de estar, pensar ou agir. Viajar sozinha foi tão simples e ao mesmo tempo tão intenso. Foi enriquecedor. Mais que isso, foi transformador.

E não demorou muito para que eu me apaixonasse pela rotina, pela segurança que NY oferece, pela vida cultural, pelo respeito às leis de acessibilidade, pelas pessoas e pela gigantesca diversidade de raça, religião, e estilos.

Não deu tempo de fazer e conhecer tudo, portanto, volto para novas aventuras. E se me perguntar: vai sozinha novamente? Respondo, sem pensar muito: Não sei! Pois a cada viagem, novas surpresas, outros olhares, acontecimentos, e claro, imprevistos. Mas isto não é ruim, pelo contrário, traz maior dinamismo e empoderamento. E uma das frases mais famosas - “Se eu consegui em NY, eu consigo em qualquer lugar” - nunca foi tão real e estimulante para eliminar as barreiras do meu dia a dia. Então, não perca o trem, a carona, o vôo e boa viagem!
 

Por Mariana Reis

Graduada em Administração de Empresas e Educação Física. Especializou-se em mais duas: Gestão Estratégica de Pessoas e Prescrição do Exercício Físico para Saúde e Treinamento.

Atualmente, é técnica de ginástica artística e personal de musculação na academia Bodytech instalada no Shopping Praia da Costa, na cidade de Vila Velha (aliás, a única cadeirante exercendo estas atividades em toda a rede).

Contato: marianabreis@gmail.com

 

Por: Jornal Turismo & Serviços


 

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