Desigualdade Social como Atração Turística

Entrevista / Artigo 09 Nov 2017

A morte da turista espanhola, ocorrida no dia 23/10 foi o “tiro de misericórdia” para se refletir sobre a exploração turística da desigualdade social que existe, não somente no Rio de Janeiro, mas em todo o País, e que expõe a fragilidade do Estado e a vida de quem transita nessas comunidades.

Alguns consideraram a morte da turista uma fatalidade; outros, despreparo da guia de turismo e das agências, que oferecem roteiros turísticos pelas comunidades mais carentes da Cidade Maravilhosa há mais de 20 anos.

Enfim, o debate sobre esse tipo de turismo está na vitrine e, infelizmente, promovido por um triste fato em uma das cidades mais queridas do Brasil e do mundo.

Independentemente de se buscar culpados, o principal fato é que uma vida foi ceifada e, infelizmente, mais uma tragédia aconteceu com uma turista estrangeira, como poderia ter acontecido com um turista brasileiro ou um cidadão carioca, que paga seus impostos e almeja por dias melhores e mais seguros.

Esse tipo de “fatalidade” tem acontecido no Rio de Janeiro frequentemente, vitimando crianças, adolescentes e adultos, mas em se tratando de uma vítima estrangeira, o fato ganhou ainda mais peso, haja vista a repercussão na mídia internacional.

Após o episódio, o Governo do Rio de Janeiro convocou, no dia 27/10, uma reunião para debater sobre os passeios turísticos oferecidos nas favelas da cidade. Logo após a reunião, o Secretário Estadual de Turismo informou que o Ministério do Turismo fará uma espécie de varredura nas agências e guias de turismo como forma de combater a atuação de profissionais sem registros e agências irregulares.

Muito embora seja uma iniciativa salutar, convém indagar se o cerne da questão é esse?

Não seria então mais efetivo se refletir sobre a utilização da pobreza, das más condições de vida, da falta de saneamento básico, da guerra do tráfico de drogas, e da própria fragilidade do Estado, em seu papel, servirem de “atração turística”?

Os valores cobrados nos Favela Tours, variam entre R$ 120,00 a R$ 140,00 reais e, em sua maioria, não oferecem retorno para as comunidades visitadas. E, se comparados com outros atrativos turísticos da Cidade Maravilhosa, não ficam para trás, como o Cristo Redentor; um clássico no Maracanã – Fla X Flu; Bondinho do Pão de Açúcar.

Explorar as favelas como atração turística, em minha concepção de turismóloga, é algo incompreensível, pois suscita um slogan implícito “venha ver como estamos à margem da sociedade”, oferecidos, em sua maioria, para turistas estrangeiros para vivenciarem a desigualdade social de perto em relação à população menos favorecida, que sobre a inculcação de que ser pobre é cult!

Agora, resta apenas mais uma mancha na imagem da Cidade Maravilhosa, considerada uma das principais portas de entrada de turistas estrangeiros no Brasil.

Lamentável!

 

Por Amália Queiroz, turismóloga, guia de turismo, diretora do Jornal Turismo & Serviços

turismoeservicos@gmail.com

Por: Jornal Turismo & Serviços


 

NEWSLETTER

Cadastre-se e receba semanalmente!

POSTS RELACIONADOS
COMENTÁRIOS

NEWSLETTER

Cadastre-se e receba semanalmente!